Website do ator, psicólogo e manager e Rafael Santin. Pai da linda Maria Eduarda. Estuda artes dramáticas no Conservatório Carlos Gomes. Atualmente está na produção da "Revolução na América do Sul" de Boal e direção de Abílio Guedes. Tem tatuado em árabe, sua filosofia de vida: Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso

Os Prazeres da Vida oFale Conosco  

Terça-feira, Agosto 10, 2004


Resolvi escrever um pouco sobre o Grupo Galpão, porque queria colocar um pouco de lirismo nesse site, e lirismo é o que não falta no amor do Grupo pelo teatro. Comecei então a pesquisar informações sobre os mineiros e me surpreendi com histórias deliciosas sobre o eles.

Tudo começou em 1982 com cinco atores mineiros, que haviam participado de uma oficina com dois professores alemães - George Frocher e Kurt Bildstein - em Festival de Inverno em Diamantina. O resultado dessa união gerou a peça A alma boa de Setsuan. Já com o grupo formado, foi montado o primeiro espetáculo de rua , ...E a noiva não quer casar.

O próximo espetáculo foi De olhos fechados, encenado no palco, que recebeu os mais importantes prêmios do teatro infantil, em 1983. Já premiado, o grupo voltou às ruas com Ó prô cê vê na ponta do pé, uma criação coletiva. A comédia da esposa muda veio a seguir, marcando a proximidade das técnicas da "Commedia Dell'arte" e o uso da máscara. Esse espetáculo foi apresentado mais de trezentas vezes, em sete anos. As mascaras e as maquiagens se tornaram um dos pontos mais fortes da concepção do Grupo Galpão, como podemos ver nas fotos.

Em 1989, voltando de uma excursão à Europa, o grupo adquire o galpão (que deu nome ao grupo) que, até hoje, é a sua sede, o local para seus ensaios, administração, depósito de cenários, figurinos, além de ser o espaço de convivência e montam no palco da tragédia de Nelson Rodrigues Álbum de Família, marcando a parceria com Eid Ribeiro e ganhando vários prêmios.



Mas ainda faltava uma peça para coloca-los definitivamente no cenário teatral brasileiro. É foi em 1992, que surgiu Romeu e Julieta , um marco do encontro do Grupo Galpão com o encenador Gabriel Villela. Romeu e Julieta teve sua estréia marcada por uma tarde de chuva forte, em Ouro Preto (cidade história de Minas), e já foi apresentado aproximadamente 250 vezes, em teatros e praças públicas do Brasil e de países como Espanha, Alemanha, Uruguai, Colômbia e Venezuela. Um espetáculo universal, com certeza. Quando ninguém mais questionava as qualidades da montagem, veio o Globe. Uma rápida passagem pela Inglaterra e o Galpão foi o primeiro grupo de teatro não-europeu a se apresentar no The Globe Theatre, o teatro de Shakespeare em Londres, que podemos ver no filme Shakespeare Apaixonado. O Globe é o templo sagrado do teatro mundial e o Rubão não se cansa de cita-lo em aula.

Continuando a parceria com Gabriel Villela, agora foi a vez de A Rua da Amargura, "uma leitura circense do nascimento e da paixão de Cristo". Baseado em O Mártir do Calvário, escrito em 1902 por Eduardo Garrido, A Rua da Amargura mescla uma interpretação inspirada nos atores melodramáticos do circo, com as tradições da religiosidade popular brasileira. Arrematando o efeito, um visual barroco, explorado no cenário, nos figurinos e no desenho da luz.

A comédia Um Molière Imaginário foi baseado em O doente imaginário, de Molière, e traz à cena a figura de seu autor, para ser novamente reverenciado, com direito a interferências na ação da peça, e a uma apoteótica vitória sobre a morte. Em parceria com o diretor Cacá Carvalho, o Galpão preparou o espetáculo Partido, baseado em O Visconde Partido ao Meio, de Ítalo Calvino. Partido é uma peça densa, que extrai humor e reflexão.

Em 1998, comemorando seus 15 anos de existência, o Galpão amplia seu espaço físico. Aluga o prédio de um antigo cinema desativado, na mesma rua onde se localiza sua sede e instala o Galpão Cine Horto, "um centro de criação e intercâmbio cultural". Nesse centro, funcionam vários cursos de teatro, música e dança. Será que o nosso Tiaguinho mineiro já passou por lá?

O Galpão é um grupo de teatro que não se articula em torno da figura de um diretor. É estruturado sobre um grupo de 13 atores, que trabalham com diretores convidados, o que não impede que, eventualmente, um dos atores assine o espetáculo.



Com Um Trem Chamado Desejo, ganhou diversos prêmios. Uma comédia deliciosa, cujo cenário são as Minas Gerais dos anos 20. Levando o cinema para o teatro - ou o teatro para o cinema - o "Trem" leva o público para o privilegiado lugar dos bastidores, para a coxia. De tudo que eu li sobre o Galpão, essa é a montagem deles que eu mais gostaria de ter assistido.

Recentemente tivemos em Campinas o espetáculo O Inspetor Geral, onde o Grupo utiliza-se da comédia para falar sobre a impostura, a hipocrisia e o medo. O texto, escrito em 1836, é tão moderno quanto as melhores peças deste século, principalmente pelo seu conteúdo de crítica e denúncia (infelizmente também perdi esse por aqui) dos males que afligem o mundo de hoje: o suborno, a impunidade, a corrupção dos governos e dos governantes, a malversação do dinheiro público, a insensibilidade dos poderosos diante da fome e da miséria do povo.



Em 22 anos de vida, o Grupo Galpão conquistou um público tão extenso quanto variado, o que resultou em inúmeros prêmios e participações nos mais importantes festivais de teatro do mundo. Enquanto isso... VIVA A REVOLUÇÃO!!!!!!


Domingo, Julho 25, 2004
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
Jim Carrey (mais uma vez) mostra que é um ator de grandes qualidades



Vou transformar esse texto numa espécie de "confessional", mas vai valer a pena, porque, sinceramente, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" é um clássico instantâneo e o melhor filme que Jim Carrey vai fazer em sua existência, isso se ele não colaborar novamente com o gênio que é o francês Michel Gondry, ou seja, o filme merece. E eu me sinto encorajado a fazer o que estou prestes a fazer, porque nunca em toda minha vida (e dentre todos muitos filmes que eu já vi) eu assisti a um filme que me incomodasse tanto a sair de seu caminho para entender, aceitar e consolar o espectador. É um dos melhores filmes que eu já assisti em toda a minha vida.

Se você um dia amou alguém com absoluta certeza irá se ver na tela. Não necessariamente na pele de um dos personagens, mas a história faz com que você dê uma de egocêntrico e olhe pra dentro. Isso é absurdamente agonizante, de fazer chorar mesmo. Chorar de nervoso, chorar porque o filme te faz perceber que você (se for o caso) não ama ou se importa com uma ex, mas sente falta mesmo é das lembranças que ainda estão na sua cabeça. E não adianta nada tentar apagar A história é justamente sobre isso e é uma viagem gigantesca.

O filme começa quando Joel Barish (Jim Carrey) acorda com um humor diferente e, ao invés de ir para o trabalho, resolve tirar o dia para dedicar-se a autocomiseração numa praia (num dia glacial). Lá, ele acaba cruzando com a excêntrica Clementine (Kate Winslet) e, apesar da timidez de Joel tentar boicotar qualquer tentativa de conversa, eles acabam se envolvendo num encontro que torna-se mágico sem sair da esfera da realidade. O filme corta para o final do relacionamento, que acaba numa nota tão amarga que Clementine procura o consultório da Lacuna (com cara de clandestino), para apagar Joel da memória e, assim, começar do zero. Acidentalmente, Joel descobre e, com os sentimentos feridos, resolve apagá-la da memória, praticamente por despeito.

Sabe quando você se lembra de uma música, mas emendando os versos dela com o refrão de uma outra? Isso é reproduzido no filme: como a memória "remonta" as situações em nossa mente, roubando elementos de outras lembranças e colocando-as onde nunca existiram. E grande parte dos efeitos foi realizada na própria câmera. E o modo como ele mostra a mente de Joel se apagando, o modo como ele insinua no cenário que aquilo que o personagem lembra não irá existir mais... "Brilho eterno..." acaba sendo um compêndio de psicologia, pois vários conceitos psicológicos, cognitivos etc, acabam traduzindo-se com perfeição na tela e, o que é mais impactante, sem ser exibicionismo do diretor, integrados perfeitamente a história. Ajuda o fato que este é o roteiro mais sentimental de Kaufman. Ainda abusado, mas menos "espertinho", ele não tem medo de escrever com o coração e, pela metade do filme, quando o roteiro nos leva pelas memórias de infância de Joel, o compromisso que o escritor assume com a platéia é explícito; difícil não ficar com um nó na garganta.

Esse história que filme cult não é para qualquer um é besteira. Todos tem capacidade para abstrair as mensagens do filme e refletir com elas. É uma linguagem diferente, que eu até chamaria de experimental e só vai fazer sentido se você um dia já se fodeu por causa de um grande amor.

"Brilho eterno..." é um triunfo de direção e de estilo. Vai da direção de arte, passa pela fotografia (que estiliza um refletor acoplado a câmera!), pela trilha sonora, um amálgama de escolhas ousadas, porém conscientes. Com o maior respeito ao que está querendo ser transmitido. A sensação passada por "Brilho eterno..." é a de alguém que, para consola-lo, simplesmente colocou a cabeça sobre seu ombro, sem ter que dizer nada. Não é aquele filme que te faz se acabar de chorar dentro do cinema; ele te acompanha até em casa, dorme contigo e ainda te leva café na cama a semana inteira. Um filme tanto para se admirar quanto se apaixonar. Assista ou sua vida terá sido uma experiência incompleta.


Segunda-feira, Julho 19, 2004
"Ópera do Malandro" chega a São Paulo
Depois de onze meses de casa lotada no Rio, chega a Sampa Ópera do Malandro, de Chico Buarque

É a história de Max, um contrabandista de 30 e poucos anos, pele morena clara, cabelos assentados com brilhantina, trajando um terno branco, lenço vermelho na lapela e sapato bicolor. Ele veio do Rio de Janeiro, mais precisamente do bairro da Lapa, onde suas contravenções só encontram paralelo no poder de sedução que costuma exercer sobre as mulheres a grande maioria delas, diga-se, de vida fácil. A polícia da cidade não precisa ficar em estado de alerta, porque este malandro, um tipo praticamente extinto, não representa perigo algum para a população, a não ser para aqueles que possuem a alma e o ouvido mais sensíveis. O tal meliante atende por um nome pomposo, Max Overseas, e poderá ser visto, de até o fim de agosto, no centro de uma das mais apaixonantes tramas já criadas pelo teatro musical brasileiro, a Ópera do Malandro.

A Ópera do Malandro desembarca no Tom Brasil Nações Unidas depois de cravar marcas históricas nas bilheterias do Rio de Janeiro: durante os 11 meses em que permaneceu em cartaz no Teatro Carlos Gomes, o espetáculo foi visto por 130 mil pessoas. Um detalhe curioso dá a dimensão deste sucesso da temporada carioca: não houve, durante as centenas de apresentações, um único assento vago na platéia, a ponto de o próprio Chico Buarque ter sido acomodado em uma cadeira reservada à produção, quando assistiu ao espetáculo na segunda semana em cartaz. 

"Este espetáculo é o único clássico do teatro musical brasileiro", diz o diretor musical Cláudio Botelho. "Das 20 canções apresentadas em cena, há pelo menos uma dúzia que o público conhece muito bem". Não dá para perder, pois não existe um planejamento da montagem vir para Campinas.


Acima vemos imagens dos ensáios com o elenco e dançarinos do espetáculo.

Alguns números justificam o rótulo de superprodução que vem colado ao espetáculo desde sua estréia. A Ópera do Malandro custou R$ 1,3 milhão, emprega 20 atores (entre eles Mauro Mendonça, Lucinha Lins e Soraya Ravenle), uma orquestra de 12 músicos e é ambientada em um cenário de três andares, com três palcos giratórios que reproduzem os famosos arcos da Lapa carioca, dispostos em um semicírculo para lembrar também o Coliseu romano. "Eu queria um cenário que lembrasse o clima da Lapa, mas também uma arena de luta, para que os personagens degladiassem em cena", afirma Charles Möeller, responsável pela direção, cenários e figurinos do espetáculo.

A primeira versão da Ópera do Malandro estreou no Brasil em 1978, no início da abertura política. O texto fazia uma série de referências ao já decadente governo militar e a algumas frases famosas que saíram da boca do ex-presidente João Figueiredo, como aquela em que revelava preferir o cheiro dos cavalos ao do povo.



Todas estas passagens, de forte conotação política, foram, a pedido do próprio Chico Buarque, suprimidas da versão atual. Mas esta montagem traz, no lugar das metáforas que se foram, quatro canções escritas por Chico Buarque anos mais tarde, para a versão cinematográfica da Ópera do Malandro. "Esta é a montagem mais completa que a Ópera do Malandro já teve, pois apresenta todas as canções do espetáculo de 1978 e mais aquelas compostas para o filme", diz a atriz e cantora Lucinha Lins.

Chico Buarque compôs a Ópera do Malandro inspirado em duas obras clássicas, a Beggars Opera, escrita pelo inglês John Gay ainda no século 18, e a Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht, que estreou em Berlim em 1928. Pelas mãos de Chico Buarque, o universo brechtiano povoado por mendigos, prostitutas, ladrões e contrabandistas instalou-se na boêmia Lapa carioca dos anos 40. Lá vive o malandro Max Overseas, contrabandista que tem na figura de Fernandes de Duran, proprietário dos prostíbulos do bairro, o seu principal inimigo.

Duran tem uma filha, Teresinha de Jesus, que, para desgosto e derrocada dos negócios da família, casa-se com Max Overseas, numa cerimônia arranjada pelo chefe de polícia, o Inspetor Chaves, gatuno que presta serviços tanto para Max como para Duran. O casamento entre Teresinha e Max cai com o impacto de uma bomba sobre as duas facções da malandragem carioca. "A peça fala um pouco sobre o assassinato da boemia e da malandragem", diz Möeller. "O malandro, da maneira como é retratado no espetáculo, desapareceu. A violência urbana deu fim a este herói romântico. É a trajetória de um malandro que morreu". O malandro morreu? Viva o malandro.

Os ingressos estão entre R$30,00 e R$80,00. Existe uma agência que está oferecendo 20% de desconto para grupos fechados. Vamos ver se não perdemos.

LOVE
RAFA


Quarta-feira, Julho 07, 2004

HISTÓRIAS & CANÇÕES


Hoje é dia de prova no ccg.

Com um repertório de clássicos da década de 30, a velha guarda da boemia será homenagiada nesta noite. Adoniran Barbosa, Pixinguinha e Noel Rosa entre outros grandes compositores serão interpretados pelos alunos do 2º e 3º ano. Quem quiser ouvir boa música deve chegar cedo ao ccg, pois as 19:30h em ponto começa Histórias & Canções.

LOVE
RAFA









Entrevista: Renato Borghi

“Brecht está mais atual do que nunca, porque as desigualdades nunca foram tão grandes como agora no Brasil”

Renato Borghi chega num sábado à tarde ao camarim do Teatro Popular do SESI para esta entrevista com a Agência Estado. Com 45 anos de carreira, o ator e dramaturgo impressiona pela sua simplicidade, talento e inteligência. A alegria e a paixão pelo teatro são atributos que ficam evidentes nessa conversa.

Você começou sua carreira dirigido pelo Sérgio Cardoso em 1958.
A peça era "Chá e Simpatia", com Nidia Licia. Antes disso, eu tinha vindo do Rio de Janeiro e a maior influência artística lá era o teatro carioca que eu assisti quando criança. Vi Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Dulcina, Jaime Costa, Rodolfo Maia, Laura Garrido, todos aqueles grandes comediantes do teatro profissional da época, que faziam um trabalho heróico. O público brasileiro sempre foi difícil, porque além de não ser grande, a preferência era por comédias ligeiras.
Então esses atores do teatro profissional eram heróis, porque eles tinham que trabalhar muito para mudar a peça de quinze em quinze dias (a temporada durava só quinze dias). Se a peça fosse um sucesso, durava um mês. Então era um trabalho alucinante! Mas eu não tinha noção disso. Eu só achava lindo porque eu era uma criança de seis, sete anos, e tinha aquele desejo de fugir com a trupe de teatro. Cada vez que via ficava apaixonado. E a outra influência grande era o rádio. Rádio Nacional no Rio de Janeiro. Emilinha, Marlene, Dalva de Oliveira.

Fale um pouco da época do Oficina, do José Celso (Martinez Corrêa).
Eu vim para S Paulo com minha família, e meu pai dirigia uma companhia de elevadores. Eu era estudante ainda, do último ano do colégio S Bento. Cheguei aqui, fui fazer faculdade de Direito. E nessa chegada a S Paulo tive um choque cultural, porque o Rio de Janeiro era muito mais à vontade, muita praia e rádio. Eu ia ser cantor. E aqui eu encontrei (desde a época do colégio S Bento até a Faculdade de Direito) colegas que estavam se dedicando arduamente à leitura dos grandes poetas paulistas (Mário de Andrade, Oswald de Andrade) e ao estudo da pintura moderna (Tarsila do Amaral, Anita Malfatti).
Comecei a me interessar também pelo Brasil do ponto de vista político e social. Freqüentei reuniões do Instituto Superior Brasileiro e mantive um grande engajamento. Foi uma grande mudança em minha cabeça aqui em S Paulo. Tanto é que nunca mais fui embora! (risos) A minha família voltou e eu não. Fiquei aqui em S Paulo.

Nos anos 80 vi você e Esther Góes em "O que mantém um homem vivo?" no TBC.
Nossa, faz tempo. A primeira vez foi em 73, e a segunda versão foi em 83, dez anos depois. Era uma montagem interessante.

Por que você gostava tanto de Brecht? Pelo conteúdo social e político?
Porque eu acho que ele sacode nossas cabeças, no sentido de mostrar o estratagema que é também a mitificação das classes médias com suas utopias medíocres. Quer dizer, você quer ter uma estabilidade, uma segurança, uma casa, um carro, como se isso fosse o fim da felicidade do homem em si.
E, na verdade, são coisas básicas que ele acha que deveriam ser garantidas pelo Estado: renda, moradia, saúde, que são direitos do cidadão. Para você poder estar aberto, recebendo uma boa educação e tendo acesso à cultura, para sonhar utopias maiores.

Hoje em dia a Cia do Latão ainda monta muito Brecht.
Ainda, graças a Deus. Eu acho que está mais atual do que nunca, está fantástico o Brecht, porque as desigualdades nunca foram tão grandes como agora no Brasil.

No cinema você fez "O Rei da Vela" com o José Celso (Martinez Correa).
Esse filme foi um marco na minha carreira. Eu sou até hoje conhecido como "O Rei da Vela". Qualquer citação que querem fazer a meu respeito é sempre como "O Rei da Vela". É uma coisa que ficou para sempre, faz parte de livros, é objeto de tese em universidades. O Sábato Magaldi defendeu uma tese de doutorado, eu acho, ou de mestrado, na USP, toda ela sobre "O Rei da Vela".

Vi uma versão recente dessa peça com a Drica Moraes no TBC.
É uma outra proposta. São duas montagens muito diferentes.

Como foi a leitura de "A Cadela de Vison" no CCBB?
Fiquei muito feliz, porque o autor quando escreve é onipotente, brinca de Deus. Então ele fica decidindo o que acontece com os personagens. Quando a obra fica pronta ele lê, não gosta, modifica, corta, mexe, adiciona. Fica mexendo nela até que chega em um ponto em que ele acha que está pronta. Aí dá um pânico, e ele pensa: "como é que as pessoas vão receber isso? Será que vão gostar, vão dormir, vão achar que é uma droga?".
Eu estava muito nervoso no dia da leitura no Banco do Brasil, estava muito aflito, apesar de todos esses anos de carreira. Eu já escrevi outras peças antes: "O Lobo de Ray-Ban", que Raul Cortez e Cristiane (Torloni) fizeram. Tem uma outra que foi um grande sucesso, talvez ainda maior de público (no Rio de Janeiro, com Marília Pêra), que foi "A Estrela Dalva", que era a vida de Dalva de Oliveira. Fiz "Decifra-me ou Devoro-te", que era uma viagem através do teatro brasileiro. Fiz umas quatro ou cinco peças. E "A Cadela de Vison" é uma peça de humor negro, irônica/auto-irônica. Eu estava com muito medo de como ela seria recebida, mas a reação foi linda...

Você mexeu no texto depois disso?
Não, agora ela está pronta.

Como é que foi trabalhar com o Ariel (Borghi)?
Eu já tinha trabalhado com o meu filho antes. Fiz uma peça chamada "Senhora do Camarim", em que eu fazia uma estrela e uma camareira, e o meu filho fazia o bofe da camareira. (risos) Da camareira não, da estrela. Toda estrela tem seu bofe, que explora ela. Ele fazia esse papel muito bem. A sociedade paulista ficou escandalizada porque no final eu dava um beijo na boca dele. As pessoas falavam: "Como??? Beijar o próprio filho!!!". Mas ele é meu filho! Fui eu que fiz! Qual é o problema?!

Em que época isso aconteceu?
Foi em 95. Ele é meu filho, carne da minha carne!! (risos) "Beijou o filho na boca!!!" Fui eu que fiz! Eu beijo ele, sim! É profissional. É trabalho.

As pessoas não entendem isso.
Não...As coisas são muito mais atrasadas do que a gente pensa, sabia? Com toda essa tecnologia de hoje parece que estamos avançados, e que agora as cabeças são abertas... São nada! A classe média ainda está naquela de comprar vestidos de noiva na Rua São Caetano...

Você fez "Pentesiléias" com a Bete Coelho, e eu fiquei muito impressionado porque era uma proposta tão diferente do que estavam fazendo na época...
Eu adorei fazer aquilo...

Eu percebo que você tem uma inquietação para procurar coisas novas, de não fazer sempre a mesma coisa.
É verdade. Mas isso vem de uma necessidade de dialogar com o público sobre coisas que eu acho que são importantes para mim, para o grupo que está atuando e a nós, cidadãos brasileiros que estamos estimulando a cultura. Porque esses assuntos são importantes e devem ser importantes para a comunidade brasileira, o público brasileiro.
Quando montei "Galileu Galilei" no Teatro Oficina, eu queria falar de um sujeito que descobriu que a Terra não era o centro do universo. E Galileu descobriu que a Terra girava feito uma maluca em torno do Sol, junto com todos os outros planetas, e desmentia toda a Inquisição. Montei a peça porque? Só para falar isso? Não. Galileu foi obrigado perante a Inquisição - que simbolizava o regime militar que estávamos vivendo - a abjurar publicamente de suas teorias, na cena em que foi exposto aos instrumentos de tortura a que ele seria submetido. E era um tempo de tortura violenta no Brasil. Então usávamos metáforas para discutir a realidade do Brasil com a platéia.

Na época, não sei se nos anos 70, todo mundo falava por metáforas, no cinema e no teatro.
Claro. Veja os governos Médici e Geisel: não poderia haver coisa mais terrível. Colegas nossos eram assassinados. Eu me lembro de uma diretora de Santo André, Leni Guariba. Até hoje eu me lembro bem desse horror. Ela foi presa e depois atirada de um helicóptero com pedras nos pés na Baía de Guanabara. Nunca mais foi achada. Eu mesmo tive que fugir por três meses para uma fazenda, sozinho naquele lugar sem luz elétrica. Era de uma tristeza desesperadora...

Muita gente enfrentou o exílio nessa época.
O próprio Zé Celso exilou-se depois, porque foi necessário. Ele tinha sido torturado. Eu acho que vivíamos um período muito negro no Brasil. E agora a gente tem um outro período difícil, que é a censura. Não mais aquele tipo de censura, mas uma outra, que é a censura econômica. Que é tão grave e drástica quanto a outra, porque agora para se produzir um espetáculo, você tem que estar muito colocado do ponto de vista das relações de poder. Tem os patrocinadores e os apoiadores, e é preciso marcar reuniões e jantares com várias pessoas importantes, fazer lobby... De artístico isso não tem nada...

Você disse numa entrevista que havia uma época em que toda a divulgação de um espetáculo era resumida a um anúncio de jornal.
Nossa, lembro que às vezes estávamos conversando na porta do teatro e, de repente: "Gente, e o anúncio de amanhã?!" Saía correndo para a Rua Abolição, depois Rua Maria Paula, e já estava no balcão do Estado de S. Paulo (que era ali onde era o Diário). "Isto é para o anúncio de amanhã!!" Pagava ali mesmo, tirando o dinheiro do bolso. Era uma coisa baratíssima, tranqüila.

Hoje em dia, qualquer espetáculo precisa de uma estrutura de marketing para não ter problemas de falta de público.
Uma estrutura absurdamente cara. Às vezes a própria manutenção do espetáculo, do ponto de vista de mídia, é mais cara que a produção da peça. É uma inversão. Os aluguéis de teatro dispararam, e as despesas de manutenção de teatro também. Não é que querem nos explorar. Manter um teatro hoje é uma coisa absurda: impostos e uma série de outras despesas.

Como a folha de pagamento dos empregados do teatro, por exemplo.
É uma loucura. Realmente precisaríamos encontrar uma saída para isto, porque as pessoas tendem a separar cultura de educação. Eu acho que a dotação do orçamento federal para educação é de 30% e para a cultura 0,1%. É um absurdo. Não é nem 1%. O Gilberto Gil foi falar com o Presidente Lula para que fosse alterado para 1% e não foi possível. Eu acho isso uma tremenda burrice porque você educa fazendo cultura. Você faz cultura educando. Isso é um binômio, tanto que já houve um tempo em que existia o Ministério da Educação e Cultura.

São duas coisas que deveriam estar emparelhadas.
Exato. E deixar de lado a preguiça burocrática. Porque, por exemplo, nós temos uma faixa de população que cresceu (quando eu me mudei pra cá havia 3,5 milhões de habitantes, agora temos 15 milhões), e continuamos trabalhando com a mesma faixa de público de 1958: quando a peça é um sucesso temos 300, 400 mil espectadores, no máximo. Um estouro de sucesso significa 400 mil pessoas. Fica um ano em cartaz.
Aí o que acontece é o seguinte: cresceu para 15 milhões. E essa faixa que cresceu não tem atendimento cultural nenhum. Quer dizer: a educação já é ruim e, para completar, o atendimento cultural é zero. Nulo. As pessoas estão ávidas de conhecimento, de discussão, querem ver coisas...

Muita gente quer ir ao teatro ou ao cinema, mas tudo é muito caro.
É muito caro. É lindo cinema de Shopping, é uma beleza. Confortável, tem estacionamento. Mas tem que ter dinheiro, porque o ingresso custa R$12,00. Fora o estacionamento, que custa R$3,00 ou R$4,00. É um programa para a classe média que tem salário fixo. E que está mais ou menos estabilizada, porque o estudante que está ali batalhando, pois veio de fora para estudar, não pode pagar esses preços. Simplesmente não vai. Sem falar na classe operária, que não tem condições, mesmo. Não tem nada feito para esse tipo de cidadão, que merece todo o nosso respeito.

Ele nem sonha com esse tipo de coisa porque está fora de sua realidade.
Porque nunca pensamos em desenvolver o teatro popular brasileiro, ou a dança, e essa dança ser mostrada nos diversos pontos do país. E fazer um braço entre a educação e a cultura, porque a Secretaria da Educação pode mobilizar muitos colégios da periferia. Que poderiam ter acesso aos teatros, inclusive com direito a conversas com os atores, já que somos patrocinados, às vezes. Eu acho que tem que ter uma contrapartida, sim. Eu sou a favor disso, de um trabalho social.

Agora o SESI está fazendo a Mostra, e "O Jardim das Cerejeiras" foi feito no SESC...
Mas "O Jardim das Cerejeiras" foi patrocinado pela Petrobrás, Eletrobrás, foi uma série de patrocínios, e pela Nossa Caixa. Eu nunca trabalhei tanto para levantar dinheiro na minha vida. Eu viajei, fui ao Rio de Janeiro, a Brasília, eu fui a milhares de lugares conversar com as pessoas, levar o projeto. Só faltou falar com o Presidente da República...

Quanto tempo levou para fazer toda essa produção?
Um ano de articulação. Isso exige que você seja uma pessoa capitalizada, porque você fica um ano só fazendo isso, e para poder viver durante esse ano você gasta tudo. Tem que ter uma boa estrutura. É uma loucura. Eu acho que isso tem que ser revisto, sabe?

Fale um pouco da Mostra. Vamos ter autores de vários lugares diferentes: daqui, do Uruguai, de Portugal...
Desta vez abrimos para outras regiões e outros países. Na outra edição a Mostra teve um recorte definidamente paulista: todos os autores eram de São Paulo. Tivemos o auxílio de Aimar Labaki e de Silvana Garcia como consultores. Eles nos forneceram textos de todo o Brasil, são do júri e também orientadores de grupos. E tivemos uma base de 120 textos, sendo que eles devem ter lido uns 180, mais ou menos. Para escolher apenas seis.
Era idéia do SESI (e eu concordo com eles) que fizéssemos agora uma Mostra com seis textos de maior fôlego. Ao invés de encenar três peças curtinhas, fazer dois textos de uma hora, por exemplo. E abrir para o Brasil todo. Tem textos do Ceará, da Bahia, de Pernambuco, de São Paulo (que eu adoro, um texto muito bom), além de Uruguai e Portugal, nossa antiga "matriz".

Vocês estão fazendo duas peças por mês?
Duas peças por quinzena.

Só quatro atores vão fazer todas as peças?
São quatro atores, e desta vez nós trouxemos mais quatro. Então, junto comigo estão Élcio Nogueira Seixas, Débora Duboc e Luah Guimarães. Além desses, agora temos também no elenco Renato Modesto, Regina França, Ariel Borghi (que é meu filho) e Valéria Pontes.

Semana que vem estréia "Alta Noite" e "El muro de Berlin nunca existió". Quem são os atores nestas peças?
"El muro de Berlin nunca existió" tem no elenco Élcio, Débora, Luah e eu. "Alta Noite" é com Luah e Renato Modesto. Ensaiamos em março, abril e maio. A partir de junho começamos a fazer espetáculos para a periferia de São Paulo experimentalmente. Depois nos apresentamos no interior de São Paulo: fomos a dez ou doze unidades do SESI, para depois então estrear aqui na Avenida Paulista.

Como foi para você fazer TV? Você participou de "A volta de Beto Rockfeller" nos anos 70, "As Pupilas do Senhor Reitor"...
"As Pupilas do Senhor Reitor" foi nos anos 90 (em 1994). Depois em 2000 eu fiz "Marcas da Paixão" na Record, gravada lá na caatinga da Bahia. Eu acho televisão uma aventura, uma delícia. Recebemos um monte de capítulos e gravamos 30 cenas no dia seguinte. Isso te obriga a um trabalho mental de laboratório e improvisação. E de criação de personagem. Te dá uma agilidade de esgrima. Se você quiser se sair bem você tem que se dedicar, sim. Porque não é só decorar. Você tem que criar uma personagem, uma entidade que o público vai aceitar ou não. É um desafio fazer isso em tão pouco tempo.

Muita gente critica a TV, mas esse prazo curto para a criação é um bom exercício para o ator.
Tem que criar rapidamente, aprender a trabalhar com rapidez. E essa Mostra tem uma diversidade temática. Uma das peças é "Braseiro", uma tragédia nordestina sobre a terra, a pobreza, a aridez, a violência, o regime "olho por olho, dente por dente". É uma peça muito violenta.
Já o "Coiteiros de paixões" é uma peça que trata de um paraíso, o Éden. Um lugar onde Lampião leva as pessoas para serem escondidas. Um lugar onde tudo é permitido, onde os homens gays andam vestidos de mulher, e as pessoas não têm compromissos de fidelidade. Isso aí é uma coisa meio anos 70, uma ideologia que apareceu nessa época dos hippies...

A liberdade total...
A liberação, a revolução sexual, etc. Isso acontece lá espontaneamente. Outra coisa curiosa é uma peça do Uruguai, sobre o fim da União Soviética. Como é que a gente ficou quando disseram que não tem mais dois lados, não tem mais esquerda e direita, existe só uma ideologia? Com o Mc Donald's instalado no meio de Moscou, como é que ficou o mundo? Porque a gente era espectador dessa história e vivia essa tensão entre as duas potências. Como reagimos perante isso? É uma peça muito curiosa, muito bonita essa peça uruguaia.
A peça portuguesa também é extremamente contemporânea, porque ela trata da relação de um casal hippongo, que queimava fumo e tudo o mais. Depois de um tempo, cada um vai para o seu lado, ela torna-se uma grande executiva e ele fica milionário. Encontram-se 22 anos depois, e resolvem fazer um casamento careta, com vestido de noiva, fraque, etc, a bordo de um transatlântico. E o transatlântico afunda (risos do entrevistador), e fica só uma parte da sala de jantar, assim pro lado de fora e eles lá em cima (mais risos). Aí vem toda uma discussão de um tempo e outro, e as relações entre eles. A peça é muito interessante, acho que diz respeito a todo mundo.

Você disse que as peças teriam a duração de uma hora mais ou menos?
Uma hora, mais ou menos.

E vão ser apresentadas de duas em duas.
De duas em duas. E tem uma outra coisa maravilhosa que é a Daniela Thomas na cenografia. Ela disse que só aceitaria o trabalho se a cenografia que fosse um choque sintático. Não era interessante para ela fazer um cenariozinho de boneca para cada pecinha. Então ela criaria três instalações, e cada uma delas abrigaria duas peças. Tem uma instalação que ela chama de Matérica, e tem uma outra que ela chama de Tecnopobre

E é interessante porque ela sempre procura fazer umas coisas que ninguém fez ainda. (Renato ri) Aqueles cenários que todo mundo está acostumado a ver não têm muita graça...
Não. Para ela não tem mais.


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